top of page

Quem foi Maria Águeda

Foto do escritor: Rafael de Jesus Andrade de Almeida
Rafael de Jesus Andrade de Almeida
9 de out.
5 min de leitura

Quarta-feira, 15 de agosto de 1804, dia santo da Assunção de Maria, em frente à antiga Igreja Matriz da Vila de Curitiba, espaço central de toda a vida social da região, onde atualmente se encontra a famosa Praça Tiradentes da capital paranaense. Nesse dia, a primeira heroína conhecida da história do Paraná decide enfrentar os desmandos das filhas e esposas da mais poderosa elite da região.

Tratava-se de Maria Águeda, moradora do antigo bairro Tinguiquera da Vila de Curitiba, atual Araucária, uma mulher negra, livre, com cerca de 25 anos, mãe de três filhos e casada com Salvador Silva, também negro.

No fatídico dia, Águeda Maria ou Maria Águeda, variando o nome conforme os registros feitos pelas autoridades da época e por conta da baixa condição social da nossa heroína, recebeu ordens explícitas das filhas e esposas das famílias mais poderosas da região. A ordem foi a seguinte: – Vá buscar brasa para acendermos nosso aquecedor.

Maria Águeda, numa atitude totalmente fora do esperado, respondeu: – Não vou. Mandem suas escravas.

As filhas da elite que deram a ordem eram ninguém mais, ninguém menos que Francisca de Paula Carneiro e Maria Joaquina Marcondes, casadas respectivamente com os poderosos Antônio Ribeiro de Andrade, capitão-mor da vila, e Francisco de Paula Ribas, tenente-coronel do corpo de cavalaria de Curitiba, terrível algoz de Águeda.

Com a resposta inesperada de Maria Águeda, seguiu-se um desentendimento entre a descendente dos escravizados e as representantes do sistema escravagista.

De acordo com o documento oficial que registrou o episódio: “[...] disse a mulher do Tenente Coronel a Maria Águeda, que se contivesse; ela concluiu dizendo que, sem embargo de ser mulher de baixo nascimento, não podia sofrer semelhantes desatinos.” (Adaptado)

Maria Joaquina Marcondes e seu poderoso marido, Francisco de Paula Ribas, entraram na igreja e assistiram à missa, provavelmente lá, combinando seus próximos passos.

Findada a missa, o tenente-coronel, acompanhado do soldado Pedro Fernandes, dirigiu-se à casa de Antônio José Pinto Bandeira, onde se encontrava Maria Águeda e seu marido. Já na casa, Francisco de Paula ordenou que o soldado conduzisse Maria Águeda à sua casa. Segue o fragmento do documento:

“Comparecendo ela, e seu marido lhe perguntou se conhecia a quem tinha desatendido; respondeu que muito bem conhecia, porém que não a tinha ofendido. Voltou-se o Tenente Coronel ao marido, dizendo: 'Se assim era, que ensinasse a sua mulher a ser desavergonhada'; e, em tom mandativo, determinou ao camarada que a pusesse na cadeia, de tronco de pé e pescoço. A isto, o marido disse que queria receber o castigo por sua mulher, visto que ela se encontrava com uma criança de peito. Não atendeu a esta rogativa, e a mulher foi para a cadeia. Como, porém, se encontravam vários presos aonde estava o tronco, fez-se recolher a cadeia destinada às mulheres, dando logo parte, e a razão para não ser colocada no tronco. Disse o Tenente Coronel, enfurecido, que executasse a ordem, que tinha determinado, e que o marido se colocasse na grade de sentinela enquanto ela estava no tronco. Aqui, suplicou o camarada que se compadecesse daquela pobre mulher, e que não parecia bem estar de tronco uma mulher onde estavam homens. Com efeito, a instâncias e rogos deste, ficou a mulher somente na enxovia, e no dia seguinte saiu.” (Adaptado)

Retomando, o tenente-coronel deu aquilo que hoje chamamos de carteirada, questionando o marido de Maria Águeda se sua esposa, ao responder de forma negativa ao “pedido” da sua querida Maria Joaquina, sabia tratar-se de uma filha de tão poderosa família. Salvador da Silva respondeu saber quem se tratava, mas que sua cônjuge não havia ofendido a esposa do tenente-coronel. Salvador chegou a propor que ele recebesse o castigo no lugar da mãe dos seus filhos. Furioso, Francisco de Paula ordenou que ela fosse colocada na cadeia, de tronco de pé e pescoço.

A ordem do tenente-coronel foi tão absurda que até mesmo o camarada suplicou para que Joaquim de Paula atenuasse a determinação. Maria Águeda permaneceu na enxovia e saiu da cadeia no dia seguinte.

A atitude do tenente-coronel Francisco de Paula Ribas pode até parecer desproporcional. Mas é sempre bom lembrar que, no Haiti, havia terminado recentemente uma revolução de escravizados que durou mais de 12 anos, praticamente dizimando todos os brancos do país recém-criado. O medo de uma revolta de escravizados apavorava as elites escravocratas do Brasil. Qualquer fagulha de contestação deveria ser imediatamente apagada com todo o rigor. Foi o que aconteceu, anos antes, na chamada Conjuração Baiana, onde quatro negros foram enforcados e esquartejados por ousarem contestar o Antigo Regime.

Por isso, a atitude de Maria Águeda é tão inesperada e perigosa — e, por isso, tamanha severidade no trato da questão.

A narrativa acima, reconstituindo um momento repleto de simbolismos na história do período colonial, só se tornou possível graças ao excelente trabalho do professor e historiador da UFPR, Magnus R. de Mello Pereira. Ao unir perspicácia investigativa a um vasto referencial historiográfico, ele soube reconstruir pormenores da vida familiar de Águeda e do mundo ao seu redor — das relações sociais aos aspectos materiais da vida colonial.

O professor Magnus nos faz uma cobrança bastante justa: prestar uma homenagem a Maria Águeda com a criação de uma praça, rua ou outro logradouro. Nas palavras do professor:

“Homenagear Maria Águeda, dando seu nome a uma praça, é reverenciar a firmeza de caráter de uma mulher do povo, mulata e pobre, como a maior parte da nossa gente. Por si só, esse gesto não compensa o secular costume de homenagear apenas os integrantes das elites locais. Praça Maria Águeda é apenas um logradouro contra milhares de outros a quem foi dado o nome de pessoas da elite — muitas delas de indiscutível valimento, outras nem sempre meritosas, como ditadores truculentos ou presidentes americanos que financiaram a quebra da democracia no Brasil. Praça Maria Águeda é um belo gesto simbólico, um começo.” (PEREIRA)

Se considerarmos que, entre os nomes dos logradouros públicos de Araucária, há vários ditadores homenageados, nada mais justo do que reconhecer uma verdadeira heroína — e não mais um covarde, como aquele que abandonou a capital frente à aproximação dos maragatos.

A Biblioteca Pública do Paraná já fez sua parte. Em 2023, inaugurou a Estante Afro Maria Águeda. Conforme a página oficial:

“Em 2023, a Biblioteca Pública do Paraná inaugurou a ‘Estante Afro Maria Águeda’, com uma doação de mais de 500 livros, uma ação conjunta com a Secretaria de Estado da Cultura, que promove e fortalece as pautas relacionadas à cultura negra, não só no Paraná como no Brasil. Importante ressaltar que este é o início da construção deste acervo, que continua recebendo doações e representa o caráter democrático da instituição, sendo uma das poucas bibliotecas do Brasil que possui um acervo totalmente dedicado à literatura negra. A iniciativa tem um grande simbolismo e marca uma das principais missões de uma biblioteca: ser um local de encontro comunitário acolhedor, aberto e gratuito, onde todos podem refletir, compartilhar e debater.” (BIBLIOTECA PÚBLICA DO PARANÁ).

Agora fica a dúvida: teriam os nossos políticos a coragem de Maria Águeda para homenagear alguém do povo?


BIBLIOTECA PÚBLICA DO PARANÁ. Estante Afro Maria Águeda. Disponível em: https://www.bpp.pr.gov.br/Pagina/Estante-Afro-Maria-Agueda


PEREIRA, Magnus R. de Mello. Uma praça para Maria Águeda. In: Centro Cultural Humaita. Disponível em: https://informativocentroculturalhumaita.wordpress.com/2018/04/03/uma-praca-para-maria-agueda/

Texto elaborado a partir de artigo do professor Magnus R. de Mello Pereira da UFPR, Por que uma Praça Maria Águeda em Araucária?


 
 
 

Comentários


bottom of page